O Reconhecimento do Ofício
Trabalhava como tradutora e gerente de comunicação da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) quando seu superintendente geral, Dorival Rodrigues Alves, anunciou-me que havia sido aberto concurso para a habilitação de novos tradutores públicos. Naturalmente, ele esperava que eu me inscrevesse – e mostrasse o caminho das pedras a uma de suas sobrinhas, professora de inglês.
E foi o que fiz, mas sem muita convicção porque, distante dos meus tempos de Letras na USP, em que o título era venerado, não considerava que sua obtenção faria muita diferença para minhas funções na Bolsa.
Com isso, preparei-me como pude, já que o trabalho também me consumia mais de 12 horas diárias. Como auxílio para a parte jurídica, contratei um curso de inglês em apostilas da Casa Schmidt.
Fiz o exame escrito sem conseguir avaliar meu desempenho, acreditando, inclusive, que não iria adiante. E foi o que contei ao superintendente geral, que comentou com satisfação que sua sobrinha havia ido bem. Eu ainda não alcançava a importância que o título representava para ele.
Para minha própria surpresa, fui habilitada para a prova oral, a qual cumpri com desenvoltura e segurança.
Certa manhã de agosto de 1999, telefonaram-me da Casa Schmidt para dizer que eu não só passara, como também me classificara em oitavo lugar entre meus pares de língua inglesa.
E foi minha consagração na Bolsa, de cujos profissionais recebi reconhecimento, consolidando minhas atividades de tradução, juramentadas ou não. Sim, porque a habilitação passou a ser considerada meu PhD, num mundo repleto de especialistas em mercado financeiro. Um ano depois, fui promovida a diretora-adjunta, posição que exerci até o final de 2007. Ainda hoje presto serviços de tradução para a Bolsa.
De certa forma, o título igualmente me trouxe a realização de um desejo da época de minha graduação na USP, pois obtivera aquilo que respeitava em professores e outros acadêmicos.
Em 2003, filiei-me à ATPIESP, pois, ao longo de minha experiência na Bolsa, aprendi que associações de classe são fundamentais para se ter um interlocutor único em luta pelos direitos de um grupo.
Pena Dorival não ter vivido para partilhar meu sucesso. Aliás, ele não chegou nem a saber que sua sobrinha não foi aprovada na prova escrita, pois faleceu antes de seu resultado.
Patrícia Brighenti
Tradutora Pública e Intérprete Comercial desde 2000 e jornalista
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