• JORGE HENRIQUE BASTOS

    08/02/2015

    Folha de S. Paulo

    RESUMO Carlos Alberto Nunes (1897-1990) dedicou a vida à tradução de clássicos latinos e helênicos, como Homero e Platão, embora seu trabalho seja pouco reconhecido. Sua versão para o português da “Eneida”, de Virgílio, que até então passara despercebida, é reeditada, ensejando reflexão sobre importância do tradutor.

    *

    Virgílio criou um poema que narrava o mito fundador do império milenar romano. Sua presença estendeu-se para além dos séculos e permanece evidente na obra e na vida dos mais diversos autores.

    No texto de abertura do livro “Kritische Essays zur europäischen Literatur” (Ensaios críticos sobre literatura europeia, 1950), a respeito do poeta, o ensaísta alemão Ernst Robert Curtius chama a atenção para o fascínio que a “Eneida” despertara em Agostinho -a ponto de levá-lo às lágrimas ao ler o relato que Eneias faz a Dido de suas aventuras e deriva, até o fim trágico da rainha de Cartago, que se suicida ao vê-lo partir, recusando seu amor.

    É sintomático que Dante tenha escolhido como guia não Homero, mas precisamente Virgílio. Camões abre “Os Lusíadas” com uma paráfrase explícita: “As armas e os barões assinalados”, fazendo ressoar o verso inicial virgiliano: “As armas canto e o varão que, fugindo das plagas de Troia”.

    Sua presença superou o tempo e as línguas. Virgílio domina a apreensão de Ludovico Ariosto de “Orlando Furioso” e comanda as hostes de Milton no “Paraíso Perdido”. Em pleno século 20, naquele que é um dos maiores romances alemães, “A Morte de Virgílio”, Hermann Broch ficcionou as 18 derradeiras horas do poeta que, imerso em dúvida, queria destruir a “Eneida”.

    São apenas alguns exemplos do magnetismo despertado ao longo dos séculos por esse poema máximo, que, na visão de Curtius, é condicionado por um percurso definitivo: “Como fenômeno histórico, Virgílio é romano e suprarromano. Domina os milênios como gênio espiritual do Ocidente”. A assertiva continua atual, sem perder sua legitimidade crítica.

    Na tradição literária de língua portuguesa, tal fascínio dominou gerações desde Camões, até surgirem as primeiras traduções feitas em Portugal e no Brasil.

    No século 19 foram publicadas duas: a do maranhense Odorico Mendes, em 1854, (hoje disponível pelas editoras Unicamp e Ateliê), em decassílabo heroico, e a dos portugueses José Victorino Barreto Feio e José Maria da Costa e Silva, de 1845 (Martins Fontes). Silva traduziu os quatro cantos finais, já que seu amigo morrera antes de concluir a empreitada. No século 20 surgem outras -no Brasil, a de Tassilo Orpheu Spalding (Cultrix, esgotado) e, em Portugal, a de Agostinho da Silva (Temas e Debates).

    Por fim, em 1981, vem à luz aquela que era porventura a mais desconhecida de todas as edições do poema de Virgílio em português, traduzida por Carlos Alberto Nunes, tendo em conta a circulação restrita que marcou o lançamento, pela editora A Montanha. Permaneceu esquecida desde então, raramente aparecendo nos sebos, ao contrário de outras traduções de sua autoria disponíveis e reimpressas até hoje, como a “Odisseia” e a “Ilíada” (Ediouro, 2001). A editora 34 encerrou essa lacuna republicando a tradução no ano passado.

    MARANHÃO

    Uma coincidência esclarecedora aponta para um pormenor curioso. Dois dos nossos maiores tradutores nasceram no Maranhão, e ambos legaram um rol de traduções cuja relevância aumenta com o passar dos anos. De certa maneira, Odorico Mendes e Carlos Alberto Nunes acabam corroborando o apodo que o Estado numa época ganhou, o de “Atenas brasileira”, o que pelo menos daria mais orgulho a seus habitantes, pensando nas manchetes em que surge na mídia do país com chacinas regulares em seus presídios ou escândalos ardilosos de cunho político.

    Pertenciam, de fato, a uma tradição literária norteada por figuras como Gonçalves Dias -seu poema “Timbiras” assombra o poema “Os Brasileidas” de Nunes- ou Sousândrade, que fora professor de grego em São Luís, daí a helenização de seu verdadeiro nome, Joaquim de Sousa Andrade.

    Estavam distantes no tempo, mas próximos no que toca à dedicação ao exercício tradutório. Dir-se-ia que estabeleceram como meta trazer à luz em nossa língua textos centrais da cultura clássica. Além do distanciamento temporal, convém ressaltar o modo de encarar a tradução. Basta fazer um paralelo entre as traduções homéricas realizadas por ambos, ou entre as do poema de Virgílio.

    A versão de Odorico Mendes, como era típico do seu estilo, utiliza um léxico rebuscado, a sintaxe peculiar e a profusão de neologismos que interrompe a compreensão do leitor a todo instante. Assinale-se que tais pressupostos foram já analisados por diversos autores.

    Carlos Alberto Nunes, por seu turno, explorou o verso de 16 sílabas poéticas, aproximando-se da tendência narrativa dos hexâmetros do original. Essa maneira de traduzir, que os mais precipitados taxariam de conservadora e excessivamente prosaica, investia-se de um aspecto narrativo cujo fim era exprimir com absoluta objetividade o sentido do poema, sem se socorrer de malabarismos vocabulares ou fogos de artifícios estilísticos que vedam, na maior parte das vezes, a expressividade genuína. Desde que suas traduções apareceram, revelaram essa convergência, procurando aproximar-se do original.

    VIDA

    Carlos Alberto Nunes nasceu em 1897, formou-se na faculdade de medicina da Bahia, exerceu funções no Acre e mudou-se para São Paulo, onde estreou, em 1938, com a tentativa malograda de criar um épico nacional, o já citado “Os Brasileidas”. Como poeta, Nunes não teve grande importância, mas o seu trabalho como tradutor lhe garantiu a projeção que ansiara.

    Suas traduções abrangem um leque variado de clássicos literários, demonstrando o autodidatismo versátil de quem conhecia os meandros de línguas como o alemão, o inglês, o grego e o latim. Traduziu o teatro completo de Shakespeare, que circulou durante muito tempo, esgotando sucessivas edições; verteu “Clavigo” e “Ifigênia em Táuride”, de Goethe; e tragédias como “Judith”, de Friedrich Hebbel.

    Resultou dessa atenção descomunal o intento em consagrar-se às obras nucleares da “paideia” helênica: os poemas homéricos e a obra filosófica platônica. Carlos Alberto Nunes resolve então aplicar-se durante uma década só a traduzir Platão. Seguia um plano sistemático de trabalho que consistia primeiro numa versão manuscrita; depois datilografava e encadernava o volume.

    Após a recusa de uma editora, decidiu doar os direitos à Universidade Federal do Pará, mediante a respectiva publicação da obra. A negociação efetuou-se por meio de seu sobrinho, o crítico e filósofo paraense Benedito Nunes, que morreu em 2011. Tudo se concretizou em julho de 1973, quando Carlos Alberto Nunes se deslocou a Belém para receber uma homenagem e efetivar a doação do manuscrito da tradução. O trabalho era composto por 2.425 folhas e 70 volumes de uma platônica particular. O espólio está à guarda da biblioteca central da UFPA.

    Reveste-se este trabalho -14 volumes e uma “Marginália Platônica” que o tradutor escreveu para servir de roteiro- de uma importância indiscutível, reeditada em versão bilíngue grego/português de maneira exemplar e editorialmente criteriosa pela Editora da Universidade do Pará, tendo como editor convidado Plínio Martins Filho.

    CASAL

    Após essa genuína pletora da tradução, Carlos Alberto Nunes começou a se preparar para enfrentar a “Eneida”. Sua mulher, Filomena Turelli, filha de um paciente seu, latinista respeitada na capital paulista, era a principal incentivadora e colaboradora do tradutor. Dedicavam-se à leitura e pesquisa de literatura clássica. É lícito supor que ela tenha contribuído nessa tradução, ajudando-o a superar as dificuldades inerentes do texto. Contudo, os hexâmetros que cunhou para reproduzir os dramas, aventuras e errância de Eneias expõem o estilo característico de Carlos Alberto Nunes, sem nenhuma dúvida.

    Finalmente, em 1981, volvidos dez homéricos anos, publica a tradução do poeta mantuano. Carlos Alberto Nunes completara 86 anos e pusera um ponto final no seu trabalho como tradutor. Morreu em 1990, e foi enterrado no cemitério de Angatuba, interior de São Paulo, relativamente esquecido, sem lhe ter sido dada a devida consagração como um dos tradutores mais produtivos do Brasil.

    Leitor das suas traduções, colecionei quase todas, comparando-as com outras que descobri em livrarias e sebos de Lisboa, Madri e Paris. Ao regressar ao Brasil, comecei a conceber a estratégia para reeditar a “Eneida”, por acreditar que o trabalho merecia ser conhecido pelas novas gerações. O passo a seguir era inquirir e pesquisar na APL (Academia Paulista de Letras) o que ele havia deixado lá, sabendo de antemão que pertencera à instituição.

    Depois de procurar alguns meses na biblioteca da APL, consultando os arquivos volumosos que vários acadêmicos costumam oferecer à casa, consegui detectar o original datilografado, que se encontrava num envelope pardo, sob outros tantos que o ocultavam. O volume apresenta apenas anotações e alterações do punho do tradutor. Nada mais. Nenhum texto sobre a tradução, nenhuma referência bibliográfica. Consultei ainda a homeriana que legou à Academia e observei várias vezes o busto de Homero, também por ele doado, disposto num dos corredores. O que restou do seu trabalho resume-se às traduções que conhecemos e agora a esta que regressa ao leitor num trabalho admirável de João Ângelo Oliva Neto e da Editora 34.

    MEMÓRIA

    Existem inúmeros textos acessíveis sobre Odorico Mendes, grupos de pesquisa que estudam e divulgam suas traduções; suas obras são reeditadas e há referências contínuas sobre seu prestígio como tradutor. Mas sobre Carlos Alberto Nunes paira o desconhecimento ou a omissão tácita que só esta recente edição pode alterar.

    Torna-se imperativo reavaliar o seu projeto tradutório, submetê-lo a uma análise lúcida e descomprometida, a fim de acolher a sua elegância expressiva, a narratividade equilibrada e objetiva, o apuro formal do verso que forjou, para receber, sem condicionamentos extemporâneos, o impacto das traduções deste senhor franzino, de olhar vivaz, que nos deixou uma das maiores heranças literárias que se pode cobiçar.

    JORGE HENRIQUE BASTOS, 50, é jornalista, poeta, tradutor e editor, autor de “Hemorragia”

    Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/02/1586229-o-tradutor-carlos-alberto-nunes-e-sua-eneida.shtml