• CARLOS AUGUSTO CALIL

     ”Saí desta morada que se chama O Coração Perdido e de repente não existi mais”, escrevia Mário de Andrade em uma crônica de 1931.

    Dez anos antes, Mário havia se mudado para a casa da rua Lopes Chaves , na Barra Funda. Sua mãe, já viúva, comprou o sobrado construído por Oscar Americano após vender a casa da família no largo do Paissandu. A construção abrigava três residências familiares, com uma única infraestrutura.

     Mário era muito ligado na família -mãe, tia e irmã-, com quem vivia na casa da Lopes Chaves. A forte personalidade dele impôs ao ambiente uma convivência harmoniosa, não isenta de contradições, entre um lar de modesta classe média e a residência de um intelectual ambicioso. Mário de Andrade, como não poderia deixar de ser, tinha gostos muito bem definidos e necessidades de sua vocação, que se refletiam na casa onde viveu.

     Inspirado nos móveis de Bruno Paul, que viu numa revista alemã de arte e decoração, desenhou, ele mesmo, e mandou executar no Liceu de Artes e Ofícios, em madeira de lei, os móveis de seu escritório.

    Agiu igualmente com relação às estantes necessárias para abrigar a sua enorme “livraria”. Estantes sólidas, de imbuia, com proteção de vidro nas prateleiras, para evitar a exposição dos livros.

    Germano Graeser/Iphan-SP/MinC

    Estúdio de Mário em 1945: ao fundo, “A Família do Fuzileiro Naval”, de Guignard (junto à escrivaninha), e “Colona”, de Portinari (à dir.)

    Estúdio de Mário em 1945: ao fundo, “A Família do Fuzileiro Naval”, de Guignard (junto à escrivaninha), e “Colona”, de Portinari (à dir.)

    À medida que a biblioteca se expandia naturalmente, as paredes iam sendo tomadas pelas estantes, que acabaram por se impor na casa toda. Como os livros se distribuíssem em seis salas, designadas pelas letras do alfabeto, Mário criou um sistema de catalogação que possibilitava a sua incorporação permanente.

    Outra vertente incontornável da personalidade de Mário de Andrade foi a de colecionador de obras de arte -desenho, gravura, pintura-, de partituras, de discos, de imagens sacras, de arte popular. Apesar dos meios modestos de que dispunha, provenientes de seu trabalho de professor de música, jornalista e escritor, Mário acumulou acervo considerável e valioso.

    Para a ensaísta Gilda de Mello e Souza, prima de Mário que viveu na casa dele enquanto estudante, o “colecionador” era o traço marcante do escritor múltiplo.

    Ele tinha compulsão em vestir o ambiente neutro da casa de elementos estéticos, antropológicos, históricos, literários com os quais se identificava e que de certo modo constituíam o seu caráter. “São ‘testemunhos-lembranças’ de um passado remoto ou recente, que agora repousam na ‘calma sapientíssima’ do estúdio. Está ali, bem protegido, o mundo de que necessita: dócil, ordenado, ao alcance da mão e do olhar”, escreveu ela.

    O efeito que a Casa de Mário de Andrade provocava nas visitas, fossem elas escritores, jornalistas, amigos ou gente que queria se aproximar do homem consagrado, era impactante.

    Dele deram testemunho eloquente Antonio Candido, Décio de Almeida Prado, Francisco de Assis Barbosa, Justino Martins, Mário da Silva Brito, Rubens Borba de Moraes, Oneyda Alvarenga, em vida do escritor.

    Segundo depoimento de Décio de Almeida Prado, “a casa do Mário era uma casa relativamente modesta, mas que, ao mesmo tempo, dava a impressão de muito requintada, artisticamente. Ele tinha um número enorme de quadros, colocados por toda a parte.”

    Depois de ele já desaparecido, o crítico Alexandre Eulalio, ao penetrar “a residência do insofrido”, constatava que “a paisagem cotidiana que Mário construiu pouco a pouco ao redor de si, com os objetos e as peças que lhe eram mais caros, restitui, com inesperada força, a personalidade do autor de ‘Belazarte’.Toda sua complexa humanidade como que é comunicada de modo transposto por esses pertences, os quais, a seu jeito, reconstituem a força moral do poeta de ‘Remate de Males’”.

     EXÍLIO

    A relação de Mário com sua casa era umbilical. Ele sempre a celebrou em seus escritos, sem discriminação de gênero, em poemas, crônicas, cartas ou contos. Quando retornou do Rio, depois de dois anos de um exílio autoimposto, reencontrava uma “inefável felicidade lopeschávica”.

    Esse retorno reforça o sentimento de dependência, de necessidade, de disciplina: “A minha casa me defende, que sou, por mim, muito desprovido de defesas. E sobretudo a minha casa me moraliza, no mais vasto sentido desta palavra”, confessou em carta a Henriqueta Lisboa, de 1941.

    Mário era sua casa, e ela, extensão de seu corpo e temperamento. Há poemas notáveis, em que o poeta fixa bem o lugar de onde emana o seu lirismo:

    Descobrimento

    Abancado à escrivaninha em São Paulo/ Na minha casa da rua Lopes Chaves/ De supetão senti um friúme por dentro/ Fiquei trêmulo, muito comovido/ Com o livro palerma olhando pra mim.// Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! muito longe de mim/ Na escuridão ativa da noite que caiu/ Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,/ Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,/ Faz pouco se deitou, está dormindo./ Esse homem é brasileiro que nem eu…

    Reconhecimento de Nêmesis (final)

    É tarde. Vamos dormir./ Amanhã escrevo o artigo,/ Respondo cartas, almoço/ Depois tomo o bonde e sigo/ Para o trabalho… Depois…/ Depois o mesmo… Depois,/ Enquanto fora os malévolos/ Se preocupam com ele,/ Vorazes feito caprinos,/ Nesta rua Lopes Chaves/ Terá um homem concertando/ As cruzes do seu destino.

    De “Lira Paulistana”

    Na rua Aurora eu nasci/ Na aurora de minha vida/ E numa aurora cresci./ No largo do Paiçandu/ Sonhei, foi luta renhida,/ Fiquei pobre e me vi nu.// Nesta rua Lopes Chaves/ Envelheço, e envergonhado/ Nem sei quem foi Lopes Chaves.// Mamãe! me dá essa lua,/ Ser esquecido e ignorado/ Como esses nomes da rua./ [...]Quando eu morrer quero ficar,/ Não contem aos meus inimigos,/ Sepultado em minha cidade,/ Saudade.// Meus pés enterrem na rua Aurora,/ No Paissandu deixem meu sexo,/ Na Lopes Chaves, a cabeça/ Esqueçam./ [...]As mãos atirem por aí/ Que desvivam como viveram,/ As tripas atirem pro Diabo,/ Que o espírito será de Deus,/ Adeus.

    Mário de Andrade era grande poeta da sua cidade de São Paulo, da sua rua Lopes Chaves, de onde lançava uma mirada generosa em direção ao Brasil.

    No conto “Peru de Natal”, Mário elabora em registro de ficção a própria realidade familiar, e, em “Idílio Novo”, uma crônica, desenha o perfil da sua mãe nos afazeres modestos: “Naquele recanto de bairro a casa não era rica, mas tinha seu parecer. Aí moravam uma senhora e seus filhos. Era paulista e já idosa, com bastante raça e tradição. Cultivava com pausa, cheia de manes que a estilizavam inconscientemente, o jardinzinho de entrada e o silêncio de todo o ser. Suas mãos serenas davam rosas, manacás, consolos e, abril chegando, floresciam numa esplêndida trepadeira de alamandas, que fora compor seu buquê violento num balcão”.

    Na prosa ou na poesia dele, encontram-se elementos que permitem reconstituir, alusiva ou concretamente, a atmosfera e o ambiente físico dessa realidade poderosa que foi a casa da rua Lopes Chaves.

    Em “Losango Cáqui”, livro de poemas escrito logo após a mudança da família para a Barra Funda, há um retrato sentimental da casa nova, que não descarta o valor iconográfico: “Minha casa…/ Tudo caiado de novo!/ É tão grande a manhã!/ É tão bom respirar!/ É tão gostoso gostar da vida!…/ A própria dor é uma felicidade!”.

    Em referências, mais ou menos cifradas, em sua extensa obra, Mário vai deixando pistas sobre sua casa e o ambiente que criou para proteção de sua intimidade.

    Séries fotográficas, produzidas por profissionais (como Germano Graeser para o Iphan/SP e BJ Duarte para a Seção de Iconografia da Prefeitura) ou amadores (como o professor Victor Knoll) compõem um registro exaustivo da ambientação da casa no tempo em que vivia seu morador.

    No entanto o mais poderoso documento em termos de evocação da atmosfera da casa foi produzido por Ruy Santos, que rodou um filme no aniversário de dez anos da morte do escritor.

    Guiada pelo texto de Gilda de Mello e Souza, elaborado a partir de escritos do próprio autor, a câmera percorre sala por sala, vasculha cantos, penetra na geografia particular em busca dos traços da presença imanente de seu morador ausente.

    Mário voltou para casa.

    A exposição “A Morada do Coração Perdido”, montada no ano em que se recorda o 70º aniversário da morte do poeta de “Pauliceia Desvairada”, marca um encontro com Mário na casa dele. Homem extraordinário, o mais completo intelectual da época, seu testemunho é indispensável para conhecermos o Brasil do século 20.

    Nota: Este texto é uma versão, reduzida pelo próprio autor para a “Ilustríssima”, de ensaio escrito para o folder da exposição “A Morada do Coração Perdido”, sob sua curadoria.

    CARLOS AUGUSTO CALIL, 64, professor da ECA-USP, é curador da exposição “A Morada do Coração Perdido”, na Casa de Mário de Andrade.

    Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2015/05/1629184-a-morada-dos-afetos-casa-de-mario-de-andrade-e-reaberta.shtml